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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um breve adeus

Um freio, gritos, carros, sirene, multidões, isso só posso ouvir. Os carros devem estar parando, já não ouço as rodas rolando. Os sons são de portas dos carros abrindo, passos adiante. Fico parado, porque não sei se ao correrem vão passar por mim, não posso ver para onde ir. Não sei o que acontece. É um acidente? Um atentado? Um assassinato? Uma perseguição? Vasculhei na memória quais os sons começaram primeiro: as sirenes, o frei, carros ou multidões? As sirenes começaram ao longe, junto com carros e freio, e não após. E antes podia-se ouvir um carro veloz, causando um alvoroço. Era uma perseguição. Nunca ouvi isso aqui. Continuo parado, sem saber o que fazer. Acho que as pessoas correm, ouço tiros. Correm. Tem gente chegando próximo a mim. Ouço berros confusos. Não posso fugir, sem saber o que tem a minha frente, ao meu lado, atrás de mim, sentir não é mais o suficiente. Passos apressados e próximos. Uma colisão comigo. Um braço na minha garganta, uma arma na minha cabeça. Pensei na voz doce da minha mulher e na manhosa da minha filha.

Naquele tarde passada, o sol era quente, o ar era limpo, e o calor não era sufocante. Elas estavam brincando no parque, eu me sentia sereno, feliz, ouvindo aquelas lindas vozes enquanto ficava sentado, ao que me parecia, em frente a elas. Minha filha pediu um sorvete, era seu aniversário e tudo o que ela pedisse iríamos lhe dar. Minha mulher veio me guiar para atravessarmos a rua. Stephanie, minha filha, estava impaciente com a minha dificuldade. Algo no chão me fez tropessar, minha mulher me segurou e quando estávamos em pé, ela deve ter visto nossa filha no meio da rua, gritou desesperada e saiu correndo. Ouvi a pancada do carro na pequenina e, como uma dolorosa confirmação, o berro de minha mulher. Tudo ensurdeceu no meu coração. A minha escuridão se aprofundou ainda mais.
Volto a ouvir, agora, a vozinha dela dizendo papai eu te amo.

Não foi minha culpa, não foi minha culpa, não foi minha culpa!
O grito me liberta e volto à tona. Ele deu o gatilho. Os policiais deviam estar atentos, um deles falava no alto-falante, tenteando acalmá-lo.
Tudo bem se esse fosse meu fim, não me sentia mais culpado. Estava em paz.
O braço apertou mais a minha garganta, a respiração estava difícil. Ele respirava ofegante. O braço foi afrouxando, até me largar no chão. Esperava ouvir a arma cair, contudo ouvi um tiro próximo e o corpo dele desabar.
Fiquei ali, com sorrisos, choros, ali, estirado na minha salvação.

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