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domingo, 10 de janeiro de 2010

Leve

Ela estava sentindo o vento bater, leve, levitando os seus cabelos numa pequena sensação de que é possivel voar. Dali avistava o mundo, ao menos assim imaginava, e ainda passava desapercebido, esquecida no mundo ou era a senhora dele? O dia era ensolarado. Ela pegou seu violão e começou a tocar suas músicas. Sua boina voou pelo prédio afora. Caiu no chão. Ele estava andando e a viu, como se nunca tivesse saído de seu destino, conhecia aquela boina. Ela não tinha ido embora estava ali, em algum lugar. Ou tinha ido embora, com pressa e deixou sua boina cair? Passava do primeiro pensamento para o segundo, sem saber em qual acreditar. Tentou mais uma vez o celular. Ela o ouviu tocar, parou a música. Pisou nele, era para não ser lembrada por ninguém, esquecida no silêncio, na tranquilidade de sua música, na serenidade que gostava e não lembrada na sua vida... na sua vida... vida! O que significa viver? É passar por momentos tão felizes e se iludir que tudo é perfeito, e o seu mundo cair do nada? É um teste para ver quem é forte e resiste a todas as loucuras que presenciamos? Ela é feita de altos e baixos em que tudo tem que ser superado? É uma superficialidade? É um corpo habitado em que os sentimentos não podem importar? Ela se sentia sem motivos, não mais confusa e sim tranquila, até o telefone tocar e acabar com a sua anestesia. A vida veio a tona, com toda força que não era mais possível. Ele corria contra o tempo, tempo que sempre acabara com todas as possibilades de belos momentos, de viver em paz. Chegara na portaria, passava por pessoas e percebia agora que todas eram desconhecidas. Todas elas, aquelas com quem passara seu precioso tempo, eram desconhecidas, apenas uma não era e ele corria para dar tempo de abraçá-la e de protegê-la. Ela estava no parapeito, tocando a música, ele na portaria. O elevador estava quebrado, ele corria pelas escadas, ela estava setada, com os pés levitando. Ele chegara no andar e ela descia para a portaria com uma singela lágrima. Ele tentou a campainha, ninguém tocava. Foi para o seu apartamento ao lado, viu a janela aberta, sentou no parapeito e a avistava. Ficou paralisado, por um instante perdeu o equilíbrio e estava voando, lembrava que ela lhe falara que ia voar para nunca mais voltar. Fechou os olhos, uma lágrima escorreu, ouvia a música dela, seus dedos tocando as cordas, sua boca cantando as palavras. A imagem se paralisou em sua mente.

Os dois corpos se apagaram do mundo depois de anos. O mundo se esquecia deles.

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