Estou sentada. O parque está vazio. O vento gélido não cessa e as folhas ficam tentando voar. Os barulhinhos dos pés brutamontes pisando nas delicadas folhas que forram o chão martelam na minha cabeça.Eu quero paz, sentir aquele sol aquecendo a pele, o vento resfriando-a, mantendo um equílibrio. Quero ouvir apenas cantos de passarinhos. De qualquer forma, aqui estou. Tem algo bem na minha frente, mas não dá para definir o que é.
-Para de se mexer, não consigo te ver.
A folhas estão voando ao meu redor. Algo gira dentro de mim. Não consigo enxergar, tudo roda. Sobe um líquido ácido pra minha boca e ao mesmo tempo abaixo a cabeça. Saiu, foi para o chão e sujou a minha roupa. Nossa, acho que estava tudo daquele jeito mesmo, porque as coisas continuam girando. Gira, gira, gira.
Estou girando, mas agora estou em pé. Quero sair. Droga, isso aqui parece blindado! Bato, bato, grito, soco, corro contra isso e caio. O choro desce desesperado. Estou enxergando, meio embaçado, mas estou.
Vejo... bolhas! Sim, são milhares de bolhas me cercando. Giram, rodopiam pelo infinito. Epa! Também estou numa bolha.
-Mãe! Mãe! Eu estou aqui! Você não me vê? O que houve? Por que está triste? Mãe? Mãe? Não bolha, não vá embora! Volta pra cá com a minha mãe!
-Pai! Calma, pai! Nunca te vi assim! Você sabe o que houve com a mamãe? Ela está ....que nem você! Não, você também não! VOLTAA!
-Não chora, tudo vai ficar bem, viu. Que foi? Cadê a sua mamãe? Filho? Meu filho??
-Xam, é você? Venha cá, meu bem. Eu preciso de você! Tudo está estranho! Amor? FICA AQUI!
Ouço sons, as vozes de todos eles se bagunçam na minha mente, cheias de palavras de desaprovação.
Fico no chão. As bolhas começam a se mover mais devagar. Os sons diminuem e ficam mais baixos.
Agora escuto apenas um som. Uma voz macia. São palavras que saem de uma boca que conheço muito bem:
-Meu amor, fique tranquila, eu estou aqui!
Vejo seu rosto. Cada traço perfeito e suave. Seu abraço é a minha fortaleza. Sua voz segura de cada palavra mostra que venceremos. Sim, conseguiremos ter este filho, sem aborto, venceremos, passaremos por cima de todos. Seremos felizes.
A boca de framboesa se aproxima desta mísera boca. Guardo o momento, trancafiado, seguro.
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