Andava. Meus passos eram atentos. Uns gravetos, umas camisinhas, e um rato morto.
Parei.
Olhei para trás, lá vinha um cachorro. Voltei-me e continuei a andar. A caminhada era longa, o lixo cobria tudo. Andei. Passos. Atentos.
Esmaguei. Passarinho voava, caiu frágil, e esmaguei aquele filhote.
Parei.
Mais ratos e pombas. Minha barriga pesava a cada passo.
Parei.
Andei. Não tinha teto. O bebê tinha a barriga enquanto estivesse viva.
Andei
Andei
E Andei.
Avistei uma senhora abrindo a porta de sua casa, pedi comida. Seu olhar era desconfiado, minhas roupas a deixavam indignada, me deixavam indignada, a barriga aparecendo. Conseguiu olhar nos meus olhos. Segurei para as lágrimas não cairem e ficarem lilás em cima da pele roxa. O olhar demorou alguns segundos e ela se prontificou a pegar algo.
Sorri.
Sorri.
Ela entrou.
Alguém encostou a mão na minha. Meu coração dilacerou, conhecia aquele toque. As lágrimas escorreram.
Sua boca chegou no meu ouvido, venha comigo, ordenava. Não levantei mais o olhar. A mão me puxava, andamos.
Andamos.
Ele virou a rua. Me jogou no chão, os ratos ao meu lado mortos. Bateu no meu rosto, rasgou minha roupa e arrancou minha calcinha. Chorava, chorava desesperada, implorava. Colocou a minha calcinha na minha boca, segurou meus pulsos. Fez o que queria.
Depois me espancou. Saiu em desparada. Meu corpo ficou lá, envolto de sangue. Sem duas das vidas.
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