campanhas

sábado, 9 de outubro de 2010

Andava. Meus passos eram atentos. Uns gravetos, umas camisinhas, e um rato morto.


Parei.


Olhei para trás, lá vinha um cachorro. Voltei-me e continuei a andar. A caminhada era longa, o lixo cobria tudo. Andei. Passos. Atentos.


Esmaguei. Passarinho voava, caiu frágil, e esmaguei aquele filhote.


Parei.


Mais ratos e pombas. Minha barriga pesava a cada passo.


Parei.


Andei. Não tinha teto. O bebê tinha a barriga enquanto estivesse viva.


Andei
Andei
E Andei.


Avistei uma senhora abrindo a porta de sua casa, pedi comida. Seu olhar era desconfiado, minhas roupas a deixavam indignada, me deixavam indignada, a barriga aparecendo. Conseguiu olhar nos meus olhos. Segurei para as lágrimas não cairem e ficarem lilás em cima da pele roxa. O olhar demorou alguns segundos e ela se prontificou a pegar algo.


Sorri.
Sorri.
Ela entrou.


Alguém encostou a mão na minha. Meu coração dilacerou, conhecia aquele toque. As lágrimas escorreram.


Sua boca chegou no meu ouvido, venha comigo, ordenava. Não levantei mais o olhar. A mão me puxava, andamos.


Andamos.

Ele virou a rua. Me jogou no chão, os ratos ao meu lado mortos. Bateu no meu rosto, rasgou minha roupa e arrancou minha calcinha. Chorava, chorava desesperada, implorava. Colocou a minha calcinha na minha boca, segurou meus pulsos. Fez o que queria.


Depois me espancou. Saiu em desparada. Meu corpo ficou lá, envolto de sangue. Sem duas das vidas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário