Um pulso dilacerela meu coração. A bile do estômago me queima. O gás oxigênio penetra com dificuldade os orifícios do meu nariz e invade meu corpo. Os passos ainda soam na minha cabeça. Naquele dia, o sol brilhava, irradiava, e penetrava a minha alma. Sim, sou leonina e o sol é o meu astro. A minha alma estava, estava feliz, intensamente feliz, sem motivos. Simplesmente, parei e observei o mundo, o meu mundo. Não era nada de especial, mas era em sua maneira perfeitinho. Sem erros, sem imprevistos, tudo no seu devido lugar. Com segurança, com amigos e com família. Nunca estive desamparada, e me culpo por em alguns momentos ter pensado que sim. É, o amor existe na minha vida. Era isso que me deixava feliz e que me fazia ver o brilho do sol iluminando as folhas daquela árvore. Estava em órbita. Fiquei ali, parada, não sei quanto tempo e o incrível é que nesta vida corrida nem me importei.
Acordei daquele transe, quando o sol ficou totalmente encoberto. Era o eclipse. Os meus olhos foram enchendo de lágrimas, e o soluço saiu engasgado pela minha garganta. Corria, fugia do meu desespero, desesperando-me mais. Cansada continuava a correr, e mais e mais. Cai. Perdi toda a confiança. O choro descia correndo, nem conseguia mais enxugar. Entre lágrimas, avistei-o meio embaçado. Vinha correndo em minha direção. Ouvia apenas seus passos, e via apenas ele. Não desliguei o olhar nenhum minuto. E quando chegou a mim, tentou me empurrar. Fui contra aquilo. Olhei para ele e um ônibus passou o atropelando, e acertando em mim.
Estava no meio da rua e não percebera. Não tinha conseguido me recompor. Não estava me importando com nada, com o certo e o errado, com o sensato e insensato. Nada. E agora, ainda não vejo a rua. Só a imagem dele na minha cabeça. E de fundo, bem distante, a ambulância e pessoas falando. Todos os barulhos foram diminuindo, até se apagarem. E vi a imagem do sol irradiando as folhas, ele chegando, me tocando.
Acordei. Estava cheia de tubos.
Um pulso dilacera meu coração. A bile do estômago me queima. O gás oxigênio penetra com dificuldade os orifícios do meu nariz e invade meu corpo. Os passos ainda soam na minha cabeça. Tem gente no meu quarto, todos ficam contentes em me verem acordada. Pergunto por ele, me falam que ele está sendo cuidado e mudam rapidamente de assunto. Conversamos um pouco, com delicadeza ninguém fala sobre o acidente. Durmo preocupada. Acordo, como e durmo preocupada. Acordo. Já estou melhor, pergunto se posso ir vê-lo, chamam a enfermeira, ela me coloca numa cadeira de rodas e vou até lá.
Lágrimas enchem os meus olhos ao vê-lo. Chego mais perto, seguro a mão dele. E o pulso ainda pulsa.
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